quinta-feira, 22 de abril de 2010

Carta aberta ao Papa e aos seus perseguidores

Sei quem és, Papa Bento. E por isso te escrevo.
Sei que te atacam. Não por ti. Só gente desinformada acreditaria poder encontrar, com verdade, na tua pessoa, uma falta de coerência como a que propalam, qualquer conivência com um «crime hediondo» como tu próprio lhe chamas.

Atacam-te a ti porque os confunde a apaixonada busca da verdade e do bem que é a tua vida. Sempre foi assim. Há pessoas que se transformam em perseguidoras porque não aguentam aqueles que possuem um coração enorme e uma inteligência soberana, abertos a todos; e que não procuram o poder mesquinho, a glória efémera dos aplausos hipócritas, a fama conseguida em atropelo da honestidade.
Atacam-te a ti — não a mim — porque és grande demais. Mas não te atacam por ti. Atacam-te porque és Cristo. Perseguem-te como perseguiram e perseguem Cristo.

Em ti e nos cristãos. Como se tu ou Ele fossem os donos das consciências, da liberdade, da história pessoal de cada um e da Igreja. E da humanidade. Como se todos nós, não podendo suportar — cobardes! — as próprias culpas, te atirássemos com elas num exercício absurdo e infantil de branqueamento de responsabilidade. Atacam-te como o tolo dispara à lua, pensando apagar nela a luz do sol. Ou — talvez pior — como o néscio desfere um golpe fatal no seu próprio corpo, julgando vingar-se. Atacam-te como se sem ti, sem a Igreja, o mundo florescesse: chegassem por fim a esta terra a paz, a justiça, a liberdade e desaparecessem o medo e a morte.

Perseguem-te para disfarçar a sua falta de ideias, de meios, de eficácia para construir. Porque sabem que tens — de Cristo — as metas altas, maiores ainda do que a nossa capacidade de desejar; e remédio para as nossas ansiedades e angústias; e manifestas, além disso, o respeito mais delicado por todos; e acolhes o bom contributo de quem não pensa como tu. Sempre foi assim. Atacam-te sabendo que não tens exércitos, ódios, mordomias. Como fizeram — fizemos e fazemos — com Cristo: desarmado, querido pelos pobres e perseguidos, trabalhador infatigável da causa da justiça, denunciador da hipocrisia então reinante. E não reparam que fazem o serviço aos poderosos, aos que esmagam os outros com tal de chegar a uma posição triunfal, aos que negam as liberdades, aos abusadores, também sexuais. Não reparam que são estes que tu fustigas com a tua palavra e o teu exemplo. São estes os que beneficiam com a perseguição que outros te movem: porque assim não têm o trabalho de te atacar — deixam-no aos mesquinhos, aos desapreensivos, aos ignorantes, aos ingénuos. Mas não se preocupem os atacantes, os perseguidores do Papa e da Igreja.

A vossa vozearia não desviará Bento da sua batalha, já antiga, a favor das crianças indefesas, da justiça social, do desenvolvimento sustentável, das vítimas inocentes da pedofilia… Se esta causa urgente e ingente é realmente o que vos importa, podem contar com ele.

Cristina Líbano Monteiro (Assistente da Faculdade de Direito de Coimbra)

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Caminhar com... Rainer Maria Rilke

Apaga-me os olhos, ainda posso ver-te.
Tranca-me os ouvidos, ainda posso ouvir-te,
e sem pés posso ainda ir para ti,
e sem boca posso ainda invocar-te.
Quebra-me os ossos, e posso apertar-te
com o coração como com a mão,
tapa-me o coração, e o cérebro baterá,
e se me deitares fogo ao cérebro,
hei-de continuar a trazer-te no sangue.


Rainer Maria Rilke; O Livro das Horas

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

"Acontece por vezes que o caminho é belo"

Georges Rouault

http://www.snpcultura.org/tvb_rouault_noite_redencao.html

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Sobre o Cristianismo

"O Cristianismo satisfaz, de forma súbita e perfeita, o ancestral instinto que o homem tem para se encontrar direito; e satisfaz tal instinto de forma suprema na circunstância de, por via deste credo, a alegria se tornar uma coisa gigantesca e a tristeza uma realidade pequena e especial."

Ortodoxia; G. K Chesterton


segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Para o Advento

Deixa um momento as tuas ocupações habituais, ó homem, entra um instante em ti mesmo, longe do tumulto dos teus pensamentos. Põe de parte os cuidados que te apoquentam e liberta-te agora das inquietações que te absorvem. Entrega-te uns momentos a Deus; descansa por algum tempo em sua presença.

Entra no íntimo da tua alma; remove tudo, excepto Deus e o que te possa ajudar a procurá-lO. Encerra as portas da tua habitação e procura-O no silêncio. Diz a Deus, de todo o coração: «Procuro o vosso rosto; o vosso rosto, Senhor, eu procuro.»

E agora, Senhor meu Deus, ensinai ao meu coração aonde e como hei-de buscar-Vos, aonde e como poderei encontrar-Vos.

Que fará, altíssimo Senhor, que fará este desterrado, tão longe de Vós? Que fará este vosso servo, sedento do vosso amor, mas tão longe da vossa presença? Anela contemplar-Vos, mas o vosso rosto está tão longe dele. Deseja aproximar-se de Vós, mas a vossa morada é inacessível. Deseja encontrar-Vos, mas desconhece o vosso rosto.

Olhai, Senhor, para nós; ouvi-nos, iluminai-nos, manifestai-Vos a nós. Vinde morar connosco e seremos felizes; sem isso, passaremos muito mal. Tende compaixão dos nossos trabalhos e esforços para Vos alcançar, porque sem Vós nada podemos.

Ensinai-me a procurar-Vos e mostrai-me o vosso rosto; porque não posso procurar-Vos, se não mo ensinais. Não posso encontrar-Vos, se não Vos mostrais. Desejando Vos procurarei, e procurando Vos desejarei; amando Vos encontrarei, e encontrando Vos amarei.

Santo Anselmo

terça-feira, 10 de novembro de 2009

"Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio"

Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio
E suportar é o tempo mais comprido.

Peço-Te que venhas e me dês a liberdade,
Que um só dos teus olhares me purifique e acabe.

Há muitas coisas que eu quero ver.

Peço-Te que sejas o presente.
Peço-Te que inundes tudo.
E que o teu reino antes do tempo venha.
E se derrame sobre a Terra
Em primavera feroz pricipitado.


Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Nas noites eu creio

Ó escuridão da qual nasci,

mais do que a chama gosto de ti,

a que o mundo delimita,

e ao brilhar se agita

para qualquer espaço circular,

fora do qual nenhum ser a pode adivinhar.


Mas a escuridão a si segura os demais:

figuras e chamas, a mim e aos animais,

tal como os alcança,

pessoas e potências…


E pode mesmo ser uma força imensa

que à minha vizinhança pertença.


Nas noites eu creio.



Livro das Horas – Rainer Maria Rilke

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Homilia de São João Crisóstomo; séc. IV

Para mim, viver é Cristo e morrer é lucro.
Muitas vagas e fortes tempestades nos ameaçam, mas não tememos ser submergidos, porque nos apoiamos na rocha firme. Por mais que se enfureça o mar, nunca poderá quebrar esta rocha; por mais que se levantem as ondas, nunca poderão afundar a nau de Jesus. Que havemos de temer? A morte? Para mim, viver é Cristo e morrer é lucro. O exílio? Do Senhor é a terra e tudo o que nela existe. A confiscação dos meus bens? Nada trouxemos para este mundo e também nada daqui podemos levar. Para mim, os perigos deste mundo só merecem desprezo, e os seus bens não passam do ridículo. Não temo a pobreza nem ambiciono riquezas; não receio a morte nem desejo viver, senão para vosso proveito. Por isso, ao recordar vos a situação presente, exorto a vossa caridade para que tenha confiança.
Não ouvis a palavra do Senhor: Onde dois ou três se reúnem em meu nome, Eu estou no meio deles? E não estará presente o Senhor no meio de um povo tão numeroso, unido pelos vínculos da caridade? Estarei eu porventura confiado nas minhas próprias forças? Não. Eu tenho a promessa do Senhor, tenho comigo a sua palavra escrita: este é o meu bordão, esta é a minha segurança, este o meu porto tranquilo. Ainda que todo o mundo se perturbe, eu tenho a sua resposta por escrito, leio a sua Escritura: esta é a minha muralha, esta é a minha fortaleza. Que diz a Escritura? Eu estou convosco todos os dias até ao fim do mundo.
Cristo está comigo; a quem hei de temer? Ainda que se lancem contra mim as ondas do mar ou o furor dos príncipes, tudo isto para mim é mais desprezível do que uma teia de aranha. E se a vossa caridade me não retivesse aqui, não recusaria partir hoje mesmo para onde quer que fosse. Porque sempre estou dizendo: Senhor, seja feita a vossa vontade; não o que quer este ou aquele, mas o que Vós quereis que eu faça. Esta é a torre que me abriga, esta é a pedra firme que me sustenta, este é o bordão que não me deixa vacilar. Seja o que Deus quiser. Se Ele quer que eu permaneça aqui, fico Lhe agradecido. Se me chama para qualquer outro lado, sempre Lhe darei graças.
Onde eu estiver, ali estareis vós também; e onde estiverdes vós, ali estarei também eu. Somos um só corpo; e nem o corpo se separa da cabeça, nem a cabeça do corpo. Ainda que estejamos em lugares distantes, ficamos sempre unidos pela caridade e nem a própria morte poderá separar nos. Porque o corpo morre, mas a alma sobrevive; e a minha alma sempre se recordará do meu povo.
Esta é a minha pátria e a minha família; vós sois os meus pais, meus irmãos e meus filhos; sois membros do mesmo corpo; sois a minha luz, uma luz mais amável que a luz do dia. Que brilho pode haver para mim mais agradável que a vossa caridade? O brilho da luz do dia é me útil na vida presente; mas a vossa caridade prepara me uma coroa para a vida futura.