quinta-feira, 27 de maio de 2010

Restolho - Mafalda veiga



Geme o restolho, triste e solitário
a embalar a noite escura e fria
e a perder-se no olhar da ventania
que canta ao tom do velho campanário

Geme o restolho, preso de saudade
esquecido, enlouquecido, dominado
escondido entre as sombras do montado
sem forças e sem cor e sem vontade

Geme o restolho, a transpirar de chuva
nos campos que a ceifeira mutilou
dormindo em velhos sonhos que sonhou
na alma a mágoa enorme, intensa, aguda

Mas é preciso morrer e nascer de novo
semear no pó e voltar a colher
há que ser trigo, depois ser restolho
há que penar para aprender a viver

e a vida não é existir sem mais nada
a vida não é dia sim, dia não
é feita em cada entrega alucinada
prá receber daquilo que aumenta o coração

Geme o restolho, a transpirar de chuva
nos campos que a ceifeira mutilou
dormindo em velhos sonhos que sonhou
na alma a mágoa enorme, intensa, aguda

Mas é preciso morrer e nascer de novo
semear no pó e voltar a colher
há que ser trigo, depois ser restolho
há que penar para aprender a viver

e a vida não é existir sem mais nada
a vida não é dia sim, dia não
é feita em cada entrega alucinada
prá receber daquilo que aumenta o coração

sexta-feira, 21 de maio de 2010

A paz sem vencedor e sem vencidos

Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Que o tempo que nos deste seja um novo
Recomeço de esperança e de justiça.
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Erguei o nosso ser à transparência
Para podermos ler melhor a vida
Para entendermos vosso mandamento
Para que venha a nós o vosso reino
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Fazei Senhor que a paz seja de todos
Dai-nos a paz que nasce da verdade
Dai-nos a paz que nasce da justiça
Dai-nos a paz chamada liberdade
Dai-nos Senhor paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Carta aberta ao Papa e aos seus perseguidores

Sei quem és, Papa Bento. E por isso te escrevo.
Sei que te atacam. Não por ti. Só gente desinformada acreditaria poder encontrar, com verdade, na tua pessoa, uma falta de coerência como a que propalam, qualquer conivência com um «crime hediondo» como tu próprio lhe chamas.

Atacam-te a ti porque os confunde a apaixonada busca da verdade e do bem que é a tua vida. Sempre foi assim. Há pessoas que se transformam em perseguidoras porque não aguentam aqueles que possuem um coração enorme e uma inteligência soberana, abertos a todos; e que não procuram o poder mesquinho, a glória efémera dos aplausos hipócritas, a fama conseguida em atropelo da honestidade.
Atacam-te a ti — não a mim — porque és grande demais. Mas não te atacam por ti. Atacam-te porque és Cristo. Perseguem-te como perseguiram e perseguem Cristo.

Em ti e nos cristãos. Como se tu ou Ele fossem os donos das consciências, da liberdade, da história pessoal de cada um e da Igreja. E da humanidade. Como se todos nós, não podendo suportar — cobardes! — as próprias culpas, te atirássemos com elas num exercício absurdo e infantil de branqueamento de responsabilidade. Atacam-te como o tolo dispara à lua, pensando apagar nela a luz do sol. Ou — talvez pior — como o néscio desfere um golpe fatal no seu próprio corpo, julgando vingar-se. Atacam-te como se sem ti, sem a Igreja, o mundo florescesse: chegassem por fim a esta terra a paz, a justiça, a liberdade e desaparecessem o medo e a morte.

Perseguem-te para disfarçar a sua falta de ideias, de meios, de eficácia para construir. Porque sabem que tens — de Cristo — as metas altas, maiores ainda do que a nossa capacidade de desejar; e remédio para as nossas ansiedades e angústias; e manifestas, além disso, o respeito mais delicado por todos; e acolhes o bom contributo de quem não pensa como tu. Sempre foi assim. Atacam-te sabendo que não tens exércitos, ódios, mordomias. Como fizeram — fizemos e fazemos — com Cristo: desarmado, querido pelos pobres e perseguidos, trabalhador infatigável da causa da justiça, denunciador da hipocrisia então reinante. E não reparam que fazem o serviço aos poderosos, aos que esmagam os outros com tal de chegar a uma posição triunfal, aos que negam as liberdades, aos abusadores, também sexuais. Não reparam que são estes que tu fustigas com a tua palavra e o teu exemplo. São estes os que beneficiam com a perseguição que outros te movem: porque assim não têm o trabalho de te atacar — deixam-no aos mesquinhos, aos desapreensivos, aos ignorantes, aos ingénuos. Mas não se preocupem os atacantes, os perseguidores do Papa e da Igreja.

A vossa vozearia não desviará Bento da sua batalha, já antiga, a favor das crianças indefesas, da justiça social, do desenvolvimento sustentável, das vítimas inocentes da pedofilia… Se esta causa urgente e ingente é realmente o que vos importa, podem contar com ele.

Cristina Líbano Monteiro (Assistente da Faculdade de Direito de Coimbra)

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Caminhar com... Rainer Maria Rilke

Apaga-me os olhos, ainda posso ver-te.
Tranca-me os ouvidos, ainda posso ouvir-te,
e sem pés posso ainda ir para ti,
e sem boca posso ainda invocar-te.
Quebra-me os ossos, e posso apertar-te
com o coração como com a mão,
tapa-me o coração, e o cérebro baterá,
e se me deitares fogo ao cérebro,
hei-de continuar a trazer-te no sangue.


Rainer Maria Rilke; O Livro das Horas

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

"Acontece por vezes que o caminho é belo"

Georges Rouault

http://www.snpcultura.org/tvb_rouault_noite_redencao.html

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Sobre o Cristianismo

"O Cristianismo satisfaz, de forma súbita e perfeita, o ancestral instinto que o homem tem para se encontrar direito; e satisfaz tal instinto de forma suprema na circunstância de, por via deste credo, a alegria se tornar uma coisa gigantesca e a tristeza uma realidade pequena e especial."

Ortodoxia; G. K Chesterton


segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Para o Advento

Deixa um momento as tuas ocupações habituais, ó homem, entra um instante em ti mesmo, longe do tumulto dos teus pensamentos. Põe de parte os cuidados que te apoquentam e liberta-te agora das inquietações que te absorvem. Entrega-te uns momentos a Deus; descansa por algum tempo em sua presença.

Entra no íntimo da tua alma; remove tudo, excepto Deus e o que te possa ajudar a procurá-lO. Encerra as portas da tua habitação e procura-O no silêncio. Diz a Deus, de todo o coração: «Procuro o vosso rosto; o vosso rosto, Senhor, eu procuro.»

E agora, Senhor meu Deus, ensinai ao meu coração aonde e como hei-de buscar-Vos, aonde e como poderei encontrar-Vos.

Que fará, altíssimo Senhor, que fará este desterrado, tão longe de Vós? Que fará este vosso servo, sedento do vosso amor, mas tão longe da vossa presença? Anela contemplar-Vos, mas o vosso rosto está tão longe dele. Deseja aproximar-se de Vós, mas a vossa morada é inacessível. Deseja encontrar-Vos, mas desconhece o vosso rosto.

Olhai, Senhor, para nós; ouvi-nos, iluminai-nos, manifestai-Vos a nós. Vinde morar connosco e seremos felizes; sem isso, passaremos muito mal. Tende compaixão dos nossos trabalhos e esforços para Vos alcançar, porque sem Vós nada podemos.

Ensinai-me a procurar-Vos e mostrai-me o vosso rosto; porque não posso procurar-Vos, se não mo ensinais. Não posso encontrar-Vos, se não Vos mostrais. Desejando Vos procurarei, e procurando Vos desejarei; amando Vos encontrarei, e encontrando Vos amarei.

Santo Anselmo

terça-feira, 10 de novembro de 2009

"Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio"

Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio
E suportar é o tempo mais comprido.

Peço-Te que venhas e me dês a liberdade,
Que um só dos teus olhares me purifique e acabe.

Há muitas coisas que eu quero ver.

Peço-Te que sejas o presente.
Peço-Te que inundes tudo.
E que o teu reino antes do tempo venha.
E se derrame sobre a Terra
Em primavera feroz pricipitado.


Sophia de Mello Breyner Andresen