O viajante aprendeu, assim, a cantar a terra, a noite e a luz, os astros, as águas e a treva, os peixes, os pássaros e as plantas. Aprendeu a nomear o mundo. Separou com uma linha de água o que nele havia de sedentário daquilo que era nómada; sabe que o homem não foi feito para ficar quieto. A sedentarização empobrece-o, seca-lhe o sangue, mata-lhe a alma - estagna o pensamento. Al Berto
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
Ingrina
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
quarta-feira, 16 de junho de 2010
Caminhar com... Papa Bento XVI
"No nosso tempo em que a fé, em vastas zonas da terra, corre o perigo de apagar-se como uma chama que já não recebe alimento, a prioridade que está acima de todas é tornar Deus presente neste mundo e abrir aos homens o acesso a Deus. Não a um deus qualquer, mas àquele Deus que falou no Sinai; àquele Deus cujo rosto reconhecemos no amor levado até ao extremo (cf. Jo 13, 1)
terça-feira, 1 de junho de 2010
"Estas mãos"

Lembro-me disto: o bispo tomou as minhas mãos trémulas nas suas mãos confiantes. Depois impuseram as mãos na minha cabeça, primeiro as do bispo, depois muitas dos padres que, por este gesto, me tornaram um deles. Pouco depois o bispo ungiu-as, e não poupou no óleo; cheiraram a crisma o dia todo.
Rapidamente as minhas mãos foram usadas para abraçar, estendidas para consagrar, expostas em súplica e postas a trabalhar na distribuição da comunhão. De seguida foram usadas para benzer filhos e pais, família e amigos, e estranhos também, que as agarravam e as beijavam porque se tinham tornado bênção.
(…) Ungiram bebés e santos moribundos, absolveram, confortaram, fortaleceram; benzeram casamentos e fecharam-se em oração a pedir ajuda durante reuniões infindáveis. (…)
Apontaram o caminho para o Céu e para a casa de banho. Apanharam lixo no parque de estacionamento e comida debaixo dos bancos da igreja. Dactilografaram orações dos fiéis no Sábado à tarde e cartas para o boletim paroquial às terças. Estas mãos viraram inúmeras páginas de breviários, leccionários, bíblias, memorandos, textos teológicos e espirituais, folhetos, jornais e relatórios de contas de escolas que, de tempos a tempos, não eram positivos como se esperava.
Entregaram alianças a noivos nervosos (…). Seguraram bolas de bingo e rifas vencedoras, documentos civis e religiosos, bênçãos apostólicas e carteiras perdidas, pratos de esparguete e lanternas quando disparou o alarme na igreja.
Estas mãos contaram hóstias e ofertórios, acenderam velas e deitaram incenso em turíbulos, passaram contas de rosário e fizeram o sinal da cruz com a custódia. Assinaram memorandos e petições, certificados e cartas, incluindo muitas a pedir dinheiro, demasiados cheques e muito poucos talões de depósito. Gesticularam loucamente em alturas quando as palavras me faltaram, ou se perderam, ou estavam na linguagem errada, ou não eram suficientemente claras para explicar um ponto que me parecia muito simples.
O seu toque acalmou os trémulos, parou os impetuosos, limpou as lágrimas, dispensou preocupações, até as minhas. Nas muitas vezes em que estava sem ideias e não sabia o que fazer, estas mãos apoiaram a minha cara e coçaram a minha cabeça.
Agora as minhas mãos estão gastas, com marcas e altos e calos. Devia pôr-lhes creme e dar-lhes descanso, recompensá-los pelo que já fizeram. Mas não o farei, não posso, ainda há tanto por fazer.
In The Tablet, 01.05.2010
Trad.: Filipe d'Avillez
© SNPC (trad.) | 31.05.10
quinta-feira, 27 de maio de 2010
Restolho - Mafalda veiga
Geme o restolho, triste e solitário
a embalar a noite escura e fria
e a perder-se no olhar da ventania
que canta ao tom do velho campanário
Geme o restolho, preso de saudade
esquecido, enlouquecido, dominado
escondido entre as sombras do montado
sem forças e sem cor e sem vontade
Geme o restolho, a transpirar de chuva
nos campos que a ceifeira mutilou
dormindo em velhos sonhos que sonhou
na alma a mágoa enorme, intensa, aguda
Mas é preciso morrer e nascer de novo
semear no pó e voltar a colher
há que ser trigo, depois ser restolho
há que penar para aprender a viver
e a vida não é existir sem mais nada
a vida não é dia sim, dia não
é feita em cada entrega alucinada
prá receber daquilo que aumenta o coração
Geme o restolho, a transpirar de chuva
nos campos que a ceifeira mutilou
dormindo em velhos sonhos que sonhou
na alma a mágoa enorme, intensa, aguda
Mas é preciso morrer e nascer de novo
semear no pó e voltar a colher
há que ser trigo, depois ser restolho
há que penar para aprender a viver
a vida não é dia sim, dia não
é feita em cada entrega alucinada
prá receber daquilo que aumenta o coração
sexta-feira, 21 de maio de 2010
A paz sem vencedor e sem vencidos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Que o tempo que nos deste seja um novo
Recomeço de esperança e de justiça.
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Erguei o nosso ser à transparência
Para podermos ler melhor a vida
Para entendermos vosso mandamento
Para que venha a nós o vosso reino
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Fazei Senhor que a paz seja de todos
Dai-nos a paz que nasce da verdade
Dai-nos a paz que nasce da justiça
Dai-nos a paz chamada liberdade
Dai-nos Senhor paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Sophia de Mello Breyner Andresen
quinta-feira, 22 de abril de 2010
Carta aberta ao Papa e aos seus perseguidores
Sei que te atacam. Não por ti. Só gente desinformada acreditaria poder encontrar, com verdade, na tua pessoa, uma falta de coerência como a que propalam, qualquer conivência com um «crime hediondo» como tu próprio lhe chamas.
Atacam-te a ti porque os confunde a apaixonada busca da verdade e do bem que é a tua vida. Sempre foi assim. Há pessoas que se transformam em perseguidoras porque não aguentam aqueles que possuem um coração enorme e uma inteligência soberana, abertos a todos; e que não procuram o poder mesquinho, a glória efémera dos aplausos hipócritas, a fama conseguida em atropelo da honestidade.
Atacam-te a ti — não a mim — porque és grande demais. Mas não te atacam por ti. Atacam-te porque és Cristo. Perseguem-te como perseguiram e perseguem Cristo.
Em ti e nos cristãos. Como se tu ou Ele fossem os donos das consciências, da liberdade, da história pessoal de cada um e da Igreja. E da humanidade. Como se todos nós, não podendo suportar — cobardes! — as próprias culpas, te atirássemos com elas num exercício absurdo e infantil de branqueamento de responsabilidade. Atacam-te como o tolo dispara à lua, pensando apagar nela a luz do sol. Ou — talvez pior — como o néscio desfere um golpe fatal no seu próprio corpo, julgando vingar-se. Atacam-te como se sem ti, sem a Igreja, o mundo florescesse: chegassem por fim a esta terra a paz, a justiça, a liberdade e desaparecessem o medo e a morte.
Perseguem-te para disfarçar a sua falta de ideias, de meios, de eficácia para construir. Porque sabem que tens — de Cristo — as metas altas, maiores ainda do que a nossa capacidade de desejar; e remédio para as nossas ansiedades e angústias; e manifestas, além disso, o respeito mais delicado por todos; e acolhes o bom contributo de quem não pensa como tu. Sempre foi assim. Atacam-te sabendo que não tens exércitos, ódios, mordomias. Como fizeram — fizemos e fazemos — com Cristo: desarmado, querido pelos pobres e perseguidos, trabalhador infatigável da causa da justiça, denunciador da hipocrisia então reinante. E não reparam que fazem o serviço aos poderosos, aos que esmagam os outros com tal de chegar a uma posição triunfal, aos que negam as liberdades, aos abusadores, também sexuais. Não reparam que são estes que tu fustigas com a tua palavra e o teu exemplo. São estes os que beneficiam com a perseguição que outros te movem: porque assim não têm o trabalho de te atacar — deixam-no aos mesquinhos, aos desapreensivos, aos ignorantes, aos ingénuos. Mas não se preocupem os atacantes, os perseguidores do Papa e da Igreja.
A vossa vozearia não desviará Bento da sua batalha, já antiga, a favor das crianças indefesas, da justiça social, do desenvolvimento sustentável, das vítimas inocentes da pedofilia… Se esta causa urgente e ingente é realmente o que vos importa, podem contar com ele.
Cristina Líbano Monteiro (Assistente da Faculdade de Direito de Coimbra)
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
Caminhar com... Rainer Maria Rilke
Apaga-me os olhos, ainda posso ver-te.
Tranca-me os ouvidos, ainda posso ouvir-te,
e sem pés posso ainda ir para ti,
e sem boca posso ainda invocar-te.
Quebra-me os ossos, e posso apertar-te
com o coração como com a mão,
tapa-me o coração, e o cérebro baterá,
e se me deitares fogo ao cérebro,
hei-de continuar a trazer-te no sangue.
Rainer Maria Rilke; O Livro das Horas