O viajante aprendeu, assim, a cantar a terra, a noite e a luz, os astros, as águas e a treva, os peixes, os pássaros e as plantas. Aprendeu a nomear o mundo. Separou com uma linha de água o que nele havia de sedentário daquilo que era nómada; sabe que o homem não foi feito para ficar quieto. A sedentarização empobrece-o, seca-lhe o sangue, mata-lhe a alma - estagna o pensamento. Al Berto
segunda-feira, 16 de maio de 2011
sexta-feira, 13 de maio de 2011
O Grito do Gamo – São Patrício
Pelo imenso poder da invocação da Trindade,
Pela minha crença em que Ele é Três,
Pela minha confissão que Ele é Um,
Pelo poder do Nascimento de Cristo e do seu Baptismo,
Pelo poder da Sua Crucifixão e do Seu Enterro,
Pelo poder da Sua Ressurreição e da Sua Ascensão,
Pelo poder da Sua vinda no dia do Juízo Final.
Pelo poder do amor do Querubim,
Na obediência dos Anjos,
No serviço dos Arcanjos,
Na esperança da ressurreição minha recompensa,
Nas preces dos Patriarcas,
Nas predições dos Profetas,
Na pregação dos Apóstolos,
Na fé dos Confessores,
Na inocência das Virgens,
Nas obras dos Homens Justos.
Pelo poder do Céu:
A luz do Sol,
O brilho da Lua,
O esplendor do Fogo,
A rapidez do Raio,
A doçura do Vento,
A fundura do Mar,
A segurança da Terra,
A firmeza da Rocha.
Pelo poder de Deus em me guiar:
A força de Deus para me amparar,
A sabedoria de Deus para me ensinar,
Os olhos de Deus para olharem por mim,
Os ouvidos de Deus para me ouvirem,
A palavra de Deus para falar por mim,
A mão de Deus para me guardar,
O caminho de Deus para eu trilhar,
O escudo de Deus para me proteger,
O exército de Deus para me salvar
Das ciladas dos demónios,
Das tentações dos vícios,
De quem me queira mal,
Quer eu esteja longe ou esteja perto,
Só ou na multidão.
E não consentem que o meu corpo combata a minha alma,
E me defendem das encantações dos falsos profetas,
E me defendem das leis sinistras do paganismo,
E me defendem das leis iníquas das heresias,
E me defendem das manhas e artes da idolatria,
E me defendem do feitiço das mulheres, magos e bruxos,
E me defendem de toda a ciência que rói o corpo e rói a alma.
Contra o veneno e contra a labareda,
Contra águas profundas e contra chagas e feridas,
E assim hei-de receber a recompensa e saciar-me.
Cristo está à minha frente e está atrás de mim,
Cristo está em mim, Cristo está por baixo de mim e por cima de mim,
Cristo está à minha direita e à minha esquerda.
Cristo está comigo quando me deito,
Cristo está comigo quando me assento,
Cristo está comigo quando me ergo.
Cristo está no coração do homem que pensa em mim,
Cristo está nos lábios de quem fala por mim,
Cristo está nos olhos de quem me olha.
Pelo imenso poder de invocação da Trindade,
Pela minha crença em que Ele é Três,
Pela minha confissão que Ele é Um,
O Criador da Criação.
[Ao Senhor pertence a Salvação, ao Senhor pertence a Salvação, a Cristo pertence a Salvação; Que a Tua Salvação, Senhor, esteja sempre connosco.]
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
O Presépio somos nós
É dentro de nós que Jesus nasce
Dentro destes gestos que em igual medida
a esperança e a sombra revestem
Dentro das nossas palavras e do seu tráfego sonâmbulo
Dentro do riso e da hesitação
Dentro do dom e da demora
Dentro do redemoinho e da prece
Dentro daquilo que não soubemos ou ainda não tentamos
É dentro de nós que Jesus nasce
Dentro de cada idade e estação
Dentro de cada encontro e de cada perda
Dentro do que cresce e do que se derruba
Dentro da pedra e do voo
Dentro do que em nós atravessa a água ou atravessa o fogo
Dentro da viagem e do caminho que sem saída parece
É dentro de nós que Jesus nasce
Dentro da alegria e da nudez do tempo
Dentro do calor da casa e do relento imprevisto
Dentro do declive e da planura
Dentro da lâmpada e do grito
Dentro da sede e da fonte
Dentro do agora e dentro do eterno
José Tolentino Mendonça
quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
Sobre um Poema
Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.
Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.
E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.
- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
Dia de todos os Santos
Hoje é dia de todos os santos: dos que têm auréola
e dos que não foram canonizados.
Dia de todos os santos: daqueles que viveram, serenos
e brandos, sem darem nas vistas e que no fim
dos tempos hão-de seguir o Cordeiro.
Hoje é dia de todos os Santos: santos barbeiros e
santos cozinheiros, jogadores de football e porque
não? comerciantes, mercadores, caldeireiros e arrumadores
(porque não arrumadoras? se até
é mais frequente que sejam elas a encaminhar o espectador?)
Ao longo dos séculos, no silêncio da noite e à
claridade do dia foram tuas testemunhas; disseram sim/sim e não/não; gastaram palavras, poucas, em rodeios, divagações. Foram teus
imitadores e na transparência dos seus gestos a
Tua imagem se divisava. Empreendedores e bravos
ou tímidos e mansos, traziam-te no coração,
Olharam o mundo com amor e os
homens como irmãos.
Do chão que pisavam
rebentava a esperança de um futuro de justiça e de salvação
e o seu presente era já quase só amor.
Cortejo inumerável de homens e mulheres que Te
seguiram e contigo conviveram, de modo admirável:
com os que tinham fome partilharam o seu pão
olharam compadecidos as dores do
mundo e sofreram perseguição por causa da Justiça
Foram limpos de coração e por isso
dos seus olhos jorrou pureza e dos seus lábios
brotaram palavras de consolação.
Amaram-Te e amaram o mundo.
Cantaram os teus louvores e a beleza da Criação.
E choraram as dores dos que desesperam.
Tiveram gestos de indignação e palavras proféticas
que rasgavam horizontes límpidos.
Estes são os que seguem o Cordeiro
porque te conheceram e reconheceram e de ti receberam
o dom de anunciar ao mundo a justiça e a salvação.
Maria de Lourdes Belchior
in: http://www.snpcultura.org/umbrais_index.html#2010_11_01segunda-feira, 25 de outubro de 2010
“Os dias de Job”
Às vezes rezo
sou um cego e vejo
as palavras o reunir
das sombras
às vezes nada digo
estendo as mãos como uma concha
puro sinal da alma
a porta
que queria que batesses
tomasses um por um os meus refúgios
estes dedos
inquietos na ignorância
do fogo
pois que tempo abrigará
os anjos
e que dia erguerá todo o sol
que há nas dunas
por isso
às vezes chove quando rezo
às vezes quase neva
sobre o pão
José Tolentino Mendonça, “A noite abre os meus olhos”, 29.